Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
A mentira conta com o esquecimento e o cansaço de quem procura a distância entre aquilo que se disse ontem e aquilo que se faz hoje. A mentira sempre desejou governar, como procurei mostrar em O mundo não esquece mais, pois a memória pública tornou-se parte da nossa responsabilidade moral.
Jesus atribui à mentira uma gravidade imensa. Em João 8,44, fala daquele que se fez seu pai porque abandonou a verdade. A mentira, quando escolhida como modo de agir, busca criar uma realidade em que já não precisamos responder pelo que fizemos e toda mentira pede outras mentiras para continuar funcionando.
É difícil pensar nisso sem olhar para a campanha eleitoral que vivenciamos. Fatos vêm a público, relações antigas reaparecem, números podem ser comparados com promessas. Diante de perguntas que exigem respostas, alguns candidatos preferem a ironia. Sorriem, fazem um gracejo, ridicularizam quem pergunta e seguem adiante como se o riso tivesse concluído o assunto. O deboche pode desviar a atenção e conquistar aplausos, mas não corrige uma mentira, não altera uma mensagem, não explica o destino do dinheiro público. O eleitor continua procurando uma resposta.
Há uma forma de desprezo nessa atitude. Quem assume a responsabilidade de governar deve tratar os cidadãos como pessoas capazes de compreender os fatos e de autorrespeito. Quando lhes oferece uma piada no lugar de uma explicação, pede que se contentem com o espetáculo. Entretanto, a pergunta permanece, mesmo depois que a plateia se dispersa. Uma autoridade madura pode reconhecer um erro, contestar uma acusação, apresentar provas e aceitar a apuração. Em qualquer dessas situações, é alguém que leva a verdade a sério.
Nesse ponto, as inteligências artificiais podem prestar um serviço precioso. Elas ajudam a localizar declarações, ler conjuntos extensos de documentos, organizar dados e mostrar onde uma versão dos acontecimentos contradiz outra. A pergunta feita pelo cidadão ganha fôlego quando ele dispõe de meios para examinar a resposta, ouvir os envolvidos e julgar com justiça.
A urgência de aprender a usar essas tecnologias nasce também do perigo contrário. Uma imagem inventada, uma voz imitada ou uma afirmação sem fonte podem dar à mentira a aparência de evidência. A mesma inteligência que ajuda a examinar um documento pode fabricar uma falsificação. Precisamos aprender a perguntar de onde veio uma informação, o que ela mostra de fato e o que ainda falta saber. Essa disciplina protege tanto quem denuncia quanto quem pode ser injustamente acusado.
O Evangelho nos ensina a estimar a verdade porque ela diz respeito à vida das pessoas. Uma eleição fundada em mentiras entrega o futuro de todos a quem mentir mais. Uma eleição em que os fatos podem ser examinados dá ao eleitor o poder de decidir. A inteligência artificial não substitui essa consciência; pode, porém, ajudá-la a ver mais longe, se empregada com sabedoria.
As inteligências artificiais não são boas nem más em si mesmas. Seu alcance moral aparece nas escolhas de quem as cria e de quem as utiliza. Aprendamos a lidar com elas o quanto antes. Usemos sua capacidade para esclarecer o que foi escondido, recuperar o que se tentou apagar e formular as perguntas às quais o poder deve responder. Usemos essas ferramentas, urgentemente, para o bem, pois a verdade merece mais que uma ironia.