Alumia-se um abismo

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

“Passando adiante, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado à coletoria dos impostos, e disse-lhe: Segue-me. Ele se levantou e o seguiu” (Mt 9,9). Há uma brutalidade silenciosa no ato de sentar. A tragédia no indivíduo que aceitou o lugar que o mundo lhe designou e que aprendeu a não mais questionar.

Mateus estava sentado. Sentado, nesse contexto, é quase uma sentença. Sentado à coletoria dos impostos, entre dois mundos que o desprezavam em igual medida.

O mundo romano, que o usava como engrenagem de opressão, e o mundo judeu, que o chamava de traidor, de impuro, de pecador público.

Mateus não lamenta a sua história. Não há, no breve versículo em que ele registra a própria vocação, nenhum relato de culpa ou de justificativa. Ele simplesmente anota que estava sentado, Jesus passou, Jesus chamou, ele levantou. Essa contenção narrativa é, em si mesma, um ato de honestidade teológica e literária. Era eu, e foi a mim que Ele veio. Não era outro. Não há equívoco de identidade.

O abismo de Mateus não era feito de ignorância, mas o de ciência. Ele sabia o que fazia e conhecia as leis que violava; conhecia os rostos que empobreciam quando recebia o imposto, conhecia a humilhação que deixava atrás de si. E mesmo assim continuava sentado, porque o abismo que mais aprisiona não é o desconhecido, mas o conhecido do qual se perdeu a esperança de sair.

Jesus não parou diante de Mateus para dialogar. Não abriu negociação nem pediu conversão prévia como condição. Disse apenas: Segue-me (δεῦτέ μου). Não era um convite à contemplação, era uma tração, iluminando, a partir de dentro, aquilo que o homem havia sepultado sob anos de colaboração com o indefensável.

A luz que irrompe de baixo, das profundezas, de dentro da própria escuridão transforma. É isso o que diz o título desta meditação, o abismo se alumia. Não é a superfície que se ilumina; é a profundeza. Mateus, que havia descido fundo, fundo demais para ser visto de fora, de repente descobre que o fundo também tem luz, que alguém chegou até lá.

Levantou-se e o seguiu, em grego ἀναστάς, o mesmo usado para a ressurreição. Mateus, ao escrever seu evangelho décadas depois, escolheu essa palavra para descrever o que aconteceu com ele ao levantar-se da morte diária e vir à luz.

Mateus, então, oferece um banquete. Chama os coletores, os pecadores, os que vivem nas margens morais da vida. E Jesus se senta à mesa com eles. Os fariseus, escandalizados, perguntam aos discípulos: Por que o vosso mestre come com os pecadores e publicanos? E Jesus responde dizendo que Não são os sãos que precisam de médico, mas os enfermos. Ide aprender o que significa: misericórdia quero, e não sacrifício.

Ao dizer isso, Jesus promove uma inversão na lógica da pureza ritual. O médico não se contamina indo ao doente; o doente se cura pela presença do médico. E a misericórdia, essa palavra hebraica hesed, que carrega o peso de uma lealdade amorosa que não desiste, é declarada superior ao sacrifício. Mateus, que havia sido tratado como aquele que não pode sacrificar, aquele excluído dos ritos, descobre que a misericórdia é o verdadeiro rito de Deus.

O abismo se alumia quando alguém desce ao abismo, não quando alguém de fora lhe lança dentro uma tocha, mas quando a luz tem coragem de ir ao fundo, e dizer aos que lá estão: levantem-se. A encarnação é isso. A visita de Deus à mesa dos pecadores. A misericórdia que Oséias proclama e que Jesus atualiza é isso. Não é o sacrifício que purifica por fora, mas o amor que desce até onde a humanidade caiu para iluminá-la.

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