Inteligência artificial, uma questão espiritual

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

Há uma tendência comum de tratar a inteligência artificial como um problema técnico. Perguntamos até onde chegarão as máquinas e quantas profissões desaparecerão; que riscos surgirão quando sistemas artificiais escreverem e calcularem melhor que qualquer um nós. Perguntas importantes, mas que permanecem na superfície.

O problema da inteligência artificial está mais centrado em nós, e menos na inteligência que conseguiremos colocar nas máquinas. Nesse sentido, a questão é mais espiritual que técnica.

A história oferece exemplos suficientemente claros, e o dinheiro é um dos mais eloquentes. Ele constituiu uma das grandes invenções da civilização porque tornou possível realizar a troca universal e a cooperação entre desconhecidos. Um instrumento extraordinário! Contudo, aquilo que deveria apenas quantificar o valor de uma coisa acabou ocupando o lugar da própria coisa. O dinheiro, criado para fazer circular, passou a ser acumulado.

É dentro dessa lógica que a inteligência artificial deve ser compreendida. Vista isoladamente, ela parece uma ruptura. Vista na história do engenho humano, revela também uma continuidade inquietante. Criamos algumas coisas para ampliar nossas capacidades e logo precisamos perguntar se continuaremos governando aquilo que criamos ou se começaremos a organizar a vida segundo as exigências da própria criação.

Para construir sistemas situados na fronteira tecnológica, atualmente, não basta possuir boas ideias, são necessários sistemas complexos e muito dinheiro. Essa concentração torna a questão tecnológica inevitavelmente geopolítica. O mundo que recebeu a inteligência artificial depois da pandemia já aprendeu essa lição pelo caminho.

A pandemia revelou a fragilidade da concentração. Fábricas paradas em um continente interrompiam linhas de montagem em outro. A falta de componentes relativamente simples impediu a fabricação de bens extremamente complexos, e o mundo começou a desconfiar. Desconfiou que não é prudente depender de um único país para produzir aquilo de que se necessita, nem de uma única moeda para guardar aquilo que acumulou.

É nesse ponto que a inteligência artificial deixa de ser uma questão tecnológica. Podemos ter acesso instantâneo ao conhecimento acumulado pela humanidade e permanecer incapazes de responder à pergunta mais elementar de todas: para quê? Uma pergunta que nenhum algoritmo pode responder adequadamente, porque a resposta antecede o próprio algoritmo; e chegamos, portanto, ao domínio do espírito.

O Evangelho conhece profundamente o evento em que um meio toma o lugar do fim. Quando afirma que onde estiver o tesouro estará também o coração, Cristo desloca a discussão da posse para as atitudes. Quando adverte que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, revela o momento em que o instrumento se transforma em senhor. Quando pergunta que vantagem existe em ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida, estabelece um critério radical com o qual poderíamos julgar o advento das IAs.

A questão Católica diante da inteligência artificial, portanto, não deve ser se ela pensa como nós; mas, se nós, possuindo tamanho poder, continuaremos capazes de conviver unidos pela filiação comum que nos faz irmãos e irmãs? Tomando consciência, por fim, que a Inteligência Artificial poderá oferecer muitas respostas, mas somente o espírito humano é capaz de escolher as melhores entre elas.

 

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