Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
Procuramos Deus saindo em expedição, armamos acampamento nos píncaros das abstrações teológicas, vasculhamos o céu em busca de uma presença transcendente, e, no fim, descobrimos, com aquela combinação de espanto e reconhecimento que só os grandes paradoxos produzem, que o objeto da busca morava dentro de nós desde o princípio. Essa é a estrutura interna do mistério que chamamos de Santíssima Trindade.
As grandes verdades raramente chegam de uma vez. O seu modo habitual é como a claridade difusa do lusco-fusco, depois o contorno das coisas, depois a luz que torna tudo visível. Assim foi com Deus, porque o amor exige tempo.
O Antigo Testamento é o grande cenário do Deus Criador. Tudo o que Ele fala, existe. Há uma presença no Sinai, nas pragas do Egito, na justiça que pesa e não cede.
Mas os profetas aprimoram essa relação. Oséias enxerga Deus como um marido traído que insiste em recuperar a esposa infiel. Isaías ouve uma voz que pergunta se “uma mãe pode esquecer o filho que amamentou?” e, antes que se responda, acrescenta que mesmo que ela esqueça, Deus não se esquecerá. Jeremias intui que por trás das ameaças do Senhor há uma nostalgia intensa, uma saudade do povo amado. O Criador não é a indiferença, mas fidelidade de quem fez uma promessa e a cumprirá.
Na conclusão desta sabedoria alcançamos o entendimento de que o fundamento do real é pessoal. O universo não emergiu de um princípio mecânico, mas de um querer. Há alguém antes de tudo, e esse alguém criou mais por amor que por necessidade.
O Novo Testamento escandaliza com a Encarnação. A ressurreição é, em certo sentido, coerente com o Deus do Antigo Testamento, com um Deus que faz existir o que não existia e pode muito bem fazer existir de novo o que havia cessado de existir. Mas que esse mesmo Deus se faça carne, que aprenda a andar e a falar, que tenha fome e sono e amigos e inimigos, é abissal.
A teologia chama a isso de kenosis, o esvaziamento do Filho de Deus que deixa de lado a glória para vir habitar entre nós. Mas a palavra “esvaziamento” ainda precise ser completada. O amor que finalmente pode ser visto parece mais adequado para o mistério da Encarnação.
Jesus de Nazaré chora diante do túmulo de Lázaro. Esta cena perturba os teólogos durante séculos. O Filho de Deus, que vai ressuscitar o morto, para antes de fazê-lo e chora. Por quê? Porque ele amava Lázaro. Porque a morte é ainda uma ofensa ao amor, mesmo quando o amor vai desfazer o mal. Porque um Deus que não chorasse diante da dor humana seria uma abstração, não um Pai.
O Novo Testamento é, no fundo, a história de como Deus nos ensinou que a salvação não é uma operação jurídica, mas uma partilha de humanidade, de morte e ressurreição. O Filho não salva por decreto, salva por presença.
Pentecostes é descrito com imagens vibrantes do vento impetuoso, chamas ardentes, pessoas que falam línguas que não aprenderam. Um acontecimento que não cabe nas categorias que temos. O Espírito é, por definição, o que excede.
Ele revela o que estava dentro sem que se soubéssemos. Pois como já tinha sido revelado, “Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse”. É a memória viva de Deus dentro da criatura. É aquilo que se abre no silêncio e sussurra que há mais do que os olhos veem.
Os místicos da tradição cristã, Agostinho, Mestre Eckhart, João da Cruz, Teresa de Ávila, chegaram ao mesmo ponto por caminhos diferentes: há um lugar no interior humano que é tocado por Deus, e é justamente esse lugar o mais propriamente nosso. Não há contradição entre ser plenamente si mesmo e ser habitado pelo Espírito. A contradição seria não sê-lo.
A Trindade, portanto, não pode ser lida como uma sequência como se fosse primeiro o Pai, depois o Filho, depois o Espírito. Como se fossem três atos de uma peça, três eras de um calendário. Os três são coeternos e onde há o Filho há o Pai. Onde age o Espírito agem os três.
A revelação é progressiva porque nós a recebemos em sequência, não porque Deus existe em sequência. É como quem lê um livro e vai entendendo a história à medida que as palavras chegam, mas ela sempre esteve inteira na mente de quem a escreveu, da primeira à última frase.
O que a história da salvação revela, vista de uma só vez, é um Deus que é, na sua própria vida interior, uma comunhão. O Pai que se dá ao Filho, o Filho que responde ao Pai, o Espírito o amor que circula entre eles; e que, como todo amor, transborda para fora de si.