Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
A esperança é uma construção que nasce, cresce, sofre e é levantada pedra sobre pedra. Não desponta como algo que se vê de longe, parece-se mais com uma casa erguida durante a tempestade. Faz-nos acreditar que, diante do mal, é possível continuar fazendo o bem silenciosamente, mesmo sem grandes vitórias, e isso é que mais nos custa compreender.
O mal, ao contrário, gosta da grandiosidade, ou melhor precisa dela para produzir medo, multiplicar suspeitas e fazer parecer inevitável aquilo que é apenas brutalidade. O mal quer convencer o coração humano de que nada mais vale a pena. Sua maior vitória não é somente ferir, é fazer com que os feridos deixem de acreditar na cura. É ensinar as pessoas a se acostumarem com a escuridão.
Por isso, construir a esperança é um ato espiritual e de coragem. É espiritual porque nasce da confiança de que Deus trabalha, mesmo quando não conseguimos ver. É corajoso porque reorganiza a convivência, impede que a humanidade se entregue ao desespero, restitui a dignidade dos pequenos e recusa a tirania dos fortes.
Há momentos em que imaginamos que a esperança depende apenas de um ator principal, de uma grande decisão, de um gesto definitivo. Mas a história raramente é assim. O bem avança por cooperação. Há quem caminhe na frente, há quem guarde a retaguarda, há quem cure feridas, há quem vigie enquanto os outros dormem, há quem distraia o inimigo para que outro cumpra a missão. A esperança é sempre maior que o protagonista.
Aqueles que parecem carregar a tarefa decisiva só conseguem avançar porque outros, em lugares distantes, sustentam a possibilidade do caminho. Uma aliança misteriosa entre o visível e o invisível, entre o conhecido e o desconhecido, entre aquilo que planejamos e aquilo que Deus conduz.
Jesus não prometeu uma vitória fácil contra o mal. Não nos entregou um mapa da história, nem garantiu que o tempo seria breve. Pelo contrário, preparou-nos para a perseguição, para o escândalo, para o fracasso, para o silêncio de Deus, para a experiência amarga da cruz e a longevidade das labutas, garantindo apenas a sua presença. “Eu estarei convosco” é o alimento secreto da esperança católica.
Nesse intervalo, somos chamados a ganhar tempo para o bem. Ganhar tempo para que as crianças cresçam longe do ódio, para que um pecador se converta. Ganhar tempo para que uma comunidade não seja devorada pela mentira, para que os pobres não sejam esquecidos. Acreditando, que, enquanto fazemos isso, Deus trabalha.
Essa é uma das verdades mais consoladoras e mais exigentes da fé. Nem tudo depende de nós, mas algo nos foi confiado. Como servidores da redenção devemos manter acesa uma lâmpada que não somos nós mesmos. Sabendo, desde já, que não venceremos o mal por nossas forças, mas podemos impedir que ele avance sem resistência neste mundo.
Construir a esperança é colaborar com a paciência de Deus que trabalha como quem conhece as noites profundas das almas. Como quem não arranca o trigo junto com o joio antes do tempo, não quebra a cana rachada e não apaga a chama que ainda fumega.
Essa esperança sabe que o mal existe e que há poderes tremendos, inteligências corrompidas, corações dominados pela posse, palavras envenenadas, comunidades que adoecem. O olha de frente e não lhe concede majestade. Reconhece sua força mas não o reconhece como destino.
Ela, a esperança, é uma insubmissão santa diante do imponderável. Olha para a realidade e diz que isso ainda não é o Reino; portanto, ainda há trabalho a fazer.
Uma das maiores tentações contra a esperança é exigir que todo gesto bom prove sua eficácia, pois a esperança nunca depende de um gesto isolado. Ela nasce da comunhão dos pequenos bens. Há uma esperança que se constrói no combate. Outra, na espera. Outra, na ternura. Outra, na perseverança. Outra, na purificação das ilusões. Outra, na aceitação humilde de que nosso papel não seja alcançar a vitória, mas manter aberto o caminho para que outros cheguem até ela.
E, aqui, encontramos uma lição derradeira, pois a esperança não será construída por aqueles que desejam vencer inimigos, mas por aqueles que desejam salvar o maior número possível de vidas.
Construir a esperança é viver como quem sabe que a aurora virá, mas não abandona a noite aos lobos, confiando que Deus fará passar por caminhos desconhecidos aquilo que nós mesmos não conseguimos concluir.