Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)
No Domingo do Bom Pastor a Igreja contempla a beleza do Cristo que conduz, protege, reúne e se entrega; mas, contemplando-o, recebe também a régua pela qual todos os outros pastoreios devem ser medidos. Diante dele, os maus pastores são desmascarados e os falsos perdem o encanto.
No Evangelho de João, Cristo é a porta, o caminho de entrada, a voz reconhecida, a presença que chama cada ovelha pelo nome. Ele as conhece e dá a vida por elas, disposição que separa o pastor do mercenário. O Bom Pastor ama as ovelhas, os maus se servem delas e administra a própria conveniência.
Muito antes de João, Ezequiel 34 faz soar sobre Israel a acusação de Deus contra esses pastores infiéis. A palavra do profeta, atual até hoje, ameaça os pastores que apascentam a si mesmos. Ai daqueles que se vestem com a lã, que se alimentam da gordura, que exploram o rebanho, mas não fortalecem a ovelha fraca, não curam a doente, não tratam a ferida, não trazem de volta a desgarrada, não procuram a perdida.
É uma das páginas mais incisivas da Escritura, porque nela Deus não censura apenas a incompetência, mas denuncia a perversão do coração. O escândalo não consiste somente em governar mal, mas em transformar o pastoreio em instrumento de proveito e exploração daquilo que devia ser objeto de amor.
É impossível ler tais páginas sem que sobre elas se projete a sombra do nosso tempo. O Brasil conhece, com amarga familiaridade, a figura dos maus pastores. E não apenas no espaço estritamente religioso. A imagem do pastor, no sentido bíblico, estende-se a todos os que receberam alguma forma de cuidado, condução e responsabilidade. Ministros do altar, pregadores, líderes espirituais, formadores de consciências, pessoas públicas, educadores da fé, guardiães do povo simples.
O mau pastor não começa necessariamente como uma fera. Ele nasce de pequenas infidelidades que preferem o aplauso à verdade e daí passa da missão às vantagens, pela influência, pela proximidade com os poderosos. Em seguida, ele deixa de ouvir o clamor dos últimos. Por fim, torna-se incapaz de distinguir entre o altar e a busca por dinheiro e poderes políticos.
Antes de ser pública sua ruína é interior. Perde-se a capacidade de chorar pelos seus e endurece-se. E, quando já não ama mais nada, ainda conserva a linguagem do amor. Vivendo de sua própria e perigosa duplicidade.
O mau pastor fere por omissão. O falso pastor, porém, fere por simulação.
Essas são figuras inquietantes de nosso tempo. O mau pastor ainda pode ser reconhecido pela dureza, pela negligência, pela arrogância. O falso pastor, ao contrário, domina a arte da aparência. Aprendeu a vestir os sinais do zelo, a pronunciar as palavras corretas, a manejar os gestos da piedade, a erguer-se como defensor do bem, enquanto em seu íntimo se move um outro culto, mais antigo e mais cruel, o culto de si mesmo.
O falso pastor é um ator da santidade. Não deseja propriamente conduzir ninguém nem a si mesmo para Deus. Seu desejo é capitalizar. Aproxima-se dos pobres sem amá-los, apenas porque reconhece neles uma multidão útil para progredir economicamente ou politicamente. Usa a linguagem de Deus para esconder a fome de domínio. Em seus lábios, o nome do Senhor pode até florescer, mas como flor plantada sobre pedra não enraíza nem dá sombra. Nele, nada é salvo.
E é por isso que, em tempos confusos, o falso pastor costuma ser mais danoso que o mau. O mau causa escândalo e pode despertar reação. O falso produz fascínio e cinismo.
O Brasil, tão ferido por desigualdades antigas, tão vulnerável às retóricas de salvação imediata, tornou-se terreno propício para esses pastoreios degenerados. Em meio à pobreza material e simbólica, muitos aprenderam a transformar a fé em negócio e a esperança em mercadoria. Alguns descobriram que o sofrimento do povo pode ser explorado com extraordinária rentabilidade. Outros perceberam que a religião, quando separada da cruz e do serviço, pode tornar-se um atalho para prestígio, riqueza e poder. E, assim, enquanto o Evangelho chama para a entrega, o espírito do tempo sussurra seduções de grandeza.
Nada disso, entretanto, anula a beleza do verdadeiro pastoreio, torna-o ainda mais urgente. Porque a sua presença, quase sempre discreta, sustenta a Igreja e o mundo com uma força que permanece de pé junto às feridas concretas. Conhece o cheiro do rebanho porque convive com ele. Sabe onde a noite é mais fria, onde a alma está mais ameaçada, onde a dúvida já deformou o coração. O Bom Pastor guarda pessoas sem explorá-las.
Sua autoridade tem origem na coerência entre a palavra e a vida. Nela, tem algo da paciência divina, que não se cansa de recomeçar com o ser humano. O Bom Pastor não tem vergonha da fragilidade alheia, porque sabe que a própria missão lhe foi confiada e sua responsabilidade é diante de Deus.
Além disso, o Bom Pastor aceita desaparecer para que Cristo apareça, sem reivindicar para si a centralidade que pertence a outro.
Uma pergunta urgente, portanto, diz respeito à voz que estamos ouvindo. João escreve que as ovelhas reconhecem a voz do verdadeiro pastor, mas o mundo multiplica vozes, amplifica vaidades, premia escândalos, acolhe frases violentas.
Num país assolado por manipulações, como o nosso, surge agora a necessidade espiritual de reaprender a discernir que nem todo aquele que fala de deus vem de Deus. Nem todo aquele que carrega a bíblia serve ao Evangelho.
É bem verdade que o rebanho é tentado a amar a força mais do que a bondade e o delírio mais do que a verdade. Mas isso não vem de Deus. A Escritura, quando lida como história do Povo de Deus, não nos infantiliza, ela educa para libertar-nos do fascínio por chefes religiosos, políticos ou morais que se apresentam como salvadores, mas não passam de administradores da própria ambição.
A figura do Bom Pastor caminha junto com o Povo de Deus. Caminhando com cajado é a imagem da ternura e medida do juízo, denunciando que onde há rebanho ferido, houve antes uma vigilância negligenciada.