O sermão mais importante da história

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Dom Lindomar Rocha Mota 
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

Naquele tempo Jesus viu uma multidão na planície e subiu ao monte para lhe falar, e o monte tornou-se uma luz para iluminar a humanidade que estava porvir. 

Ao se colocar na parte alta do terreno Ele retoma a antiga sabedoria dos séculos e toca algo profundo na estrutura do real, assim como Moisés o fez. O alto não é somente uma posição, mas um lugar de visão, de liberdade e de sentido. Do alto se enxerga o todo e se escolhe o caminho; do alto se impõe ao adversário o peso da subida.  

O sermão de Jesus, em Mateus 5,1-12, inaugura o futuro. Ele chancela a criação que vinha pedindo direção e planta na poeira inquieta da história uma ordem viva, capaz de atravessar impérios, ruínas e tecnologias. O Sermão da Montanha permanece como o mais importante de todos os sermões porque carrega uma evidência que Deus pode ajustar o mundo a partir daqueles que o mundo rejeita. 

Como no Sinai, onde a Lei foi dada, no Monte algo decisivo também acontece. Mas agora não são tábuas de pedra que descem do alto. É um coração novo que se abre, e Jesus já não entrega normas, mas um caminho onde o centro do mundo é deslocado do poder para a misericórdia, da imposição para a mansidão, da vitória para a fidelidade. 

Este sermão Ele o fez sentado. Quem se assenta toma posse do tempo como Senhor de tudo, e assim, mesmo encarnado na natureza humana, ninguém nunca se pareceu tanto com as manifestações grandiosas de Deus, como Ele.  

A palavra que Ele está para dizer não é apressada, é um ensinamento que organizará o futuro, por isso os discípulos se aproximam e o mundo se aconchega para entender o seu propósito. 

O sermão começa com um olhar. Jesus olha e, ao olhar, escolhe a direção. Ele fala aos seus e apresenta a eles o povo com o intento de formar discípulos para que o mundo não perca os pobres. Em seguida Ele estabelece quem tem prioridade na casa de Deus e entrega ao tempo um critério que o tempo precisa reaprender, pois indica os primeiros brotos do Reino. 

Ali, no Monte, o mundo é visto de outra maneira. As pressas do vale, as disputas, os cálculos, as hierarquias de força e prestígio ficam abaixo, e o humano aparece não pelo que possui, mas pelo que espera. É deste lugar que Jesus começa a falar. E o que Ele diz não é um comentário sobre a realidade, mas um novo modo de habitá-la. O Sermão da Montanha revela tudo que é verdadeiro e belo na humanidade. 

Por isso, “Vendo as multidões, subiu ao monte… e começou a ensiná-los”: 

Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. A pobreza espiritual abre a porta por dentro. O pobre em espírito vive desarmado de pretensões, livre para receber. Ele caminha sem se apoiar na ilusão de domínio e carrega uma confiança anterior ao cálculo.  

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. O choro guarda a dignidade do amor. Ele preserva a humanidade de endurecer. Ele conserva a memória do que ainda pede salvação. Jesus contempla esse pranto como quem contempla uma semente.

Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. A mansidão governa a terra com sensibilidade. Ela constrói o que a violência destrói e faz habitar o que o grito dispersa. O manso carrega uma força cortês, firmeza iluminada, autoridade que não humilha. A terra reconhece essa pessoa como herdeira, porque a terra se deixa cultivar por elas. A mansidão funda cidades e salva famílias. Ela semeia futuro. 

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. A justiça se torna fome no coração. Ela arde como sede na garganta de quem não se acostuma com o mal e põe perguntas que protegem a alma. Nessa fome vive uma promessa. Deus sacia porque Deus é fiel ao clamor que Ele mesmo fez cintilar. 

Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. A misericórdia tem o peso de Deus na mão humana. Ela toca a miséria e devolve dignidade. Ela refaz laços, cura histórias, abre o amanhã para quem se via sem futuro. No misericordioso a misericórdia de Deus encontra continuidade. 

Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. O coração puro unifica o olhar. Ele reúne as intenções, recolhe os desejos, alinha a vida com a verdade. A visão de Deus não nasce de curiosidade, nasce de retidão interior. O puro reconhece o essencial no meio do excesso e guarda dentro de si uma claridade que o mundo sente falta. 

Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. O pacificador trabalha como Deus trabalha. Ele faz nascer unidade onde havia ruptura e semeia reconciliação onde havia suspeita. A paz cresce ao redor dele como sombra boa. Por isso recebe o nome de filho, porque reproduz o estilo do Pai. 

Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. A fidelidade cria raízes no tempo e permanece quando a pressão chega. O perseguido por causa da justiça sustenta a alegria de quem pertence ao Reino com tudo o que ele é.  

Por fim, “Bem-aventurados sois vós…”. Jesus aproxima a promessa de todos nós. Ele dá o manual do discipulado e da santidade. Ele chama a Igreja para dentro do seu próprio destino. O Reino se torna pertença e a recompensa se torna horizonte. A alegria se torna disciplina do coração e o monte gera uma humanidade impávida. 

Esse mundo que se ergue sobre as bem-aventuranças, e que vivemos agora, estende-se na Igreja. Quem a escuta já não pode ser governado pelos critérios do vale, a perseguição não define mais o seu destino. A pobreza não é o fim, a dor não é absurda. Tudo passa a gravitar em torno de um Reino que não pode ser tomado, porque não está apoiado na força, mas na verdade. Por isso o Sermão da Montanha nunca envelhece! E, enquanto o monte estiver ocupado, a história não pertence aos que dominam de baixo, mas àqueles que aprenderam a olhar o mundo do alto, com os olhos do próprio Cristo. 

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