{"id":19028,"date":"2026-04-27T11:54:42","date_gmt":"2026-04-27T14:54:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/?p=19028"},"modified":"2026-04-27T11:54:43","modified_gmt":"2026-04-27T14:54:43","slug":"bons-maus-e-falsos-pastores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/2026\/04\/27\/bons-maus-e-falsos-pastores\/","title":{"rendered":"Bons, maus e falsos pastores"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br><\/strong><em>Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No Domingo do Bom Pastor a Igreja contempla a beleza do Cristo que conduz, protege, re\u00fane e se entrega; mas, contemplando-o, recebe tamb\u00e9m a r\u00e9gua pela qual todos os outros pastoreios devem ser medidos. Diante dele, os maus pastores s\u00e3o desmascarados e os falsos perdem o encanto.<\/p>\n\n\n\n<p>No Evangelho de Jo\u00e3o, Cristo \u00e9 a porta, o caminho de entrada, a voz reconhecida, a presen\u00e7a que chama cada ovelha pelo nome. Ele as conhece e d\u00e1 a vida por elas, disposi\u00e7\u00e3o que separa o pastor do mercen\u00e1rio. O Bom Pastor ama as ovelhas, os maus se servem delas e administra a pr\u00f3pria conveni\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito antes de Jo\u00e3o, Ezequiel 34 faz soar sobre Israel a acusa\u00e7\u00e3o de Deus contra esses pastores infi\u00e9is. A palavra do profeta, atual at\u00e9 hoje, amea\u00e7a os pastores que apascentam a si mesmos. Ai daqueles que se vestem com a l\u00e3, que se alimentam da gordura, que exploram o rebanho, mas n\u00e3o fortalecem a ovelha fraca, n\u00e3o curam a doente, n\u00e3o tratam a ferida, n\u00e3o trazem de volta a desgarrada, n\u00e3o procuram a perdida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma das p\u00e1ginas mais incisivas da Escritura, porque nela Deus n\u00e3o censura apenas a incompet\u00eancia, mas denuncia a pervers\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o. O esc\u00e2ndalo n\u00e3o consiste somente em governar mal, mas em transformar o pastoreio em instrumento de proveito e explora\u00e7\u00e3o daquilo que devia ser objeto de amor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel ler tais p\u00e1ginas sem que sobre elas se projete a sombra do nosso tempo. O Brasil conhece, com amarga familiaridade, a figura dos maus pastores. E n\u00e3o apenas no espa\u00e7o estritamente religioso. A imagem do pastor, no sentido b\u00edblico, estende-se a todos os que receberam alguma forma de cuidado, condu\u00e7\u00e3o e responsabilidade. Ministros do altar, pregadores, l\u00edderes espirituais, formadores de consci\u00eancias, pessoas p\u00fablicas, educadores da f\u00e9, guardi\u00e3es do povo simples.<\/p>\n\n\n\n<p>O mau pastor n\u00e3o come\u00e7a necessariamente como uma fera. Ele nasce de pequenas infidelidades que preferem o aplauso \u00e0 verdade e da\u00ed passa da miss\u00e3o \u00e0s vantagens, pela influ\u00eancia, pela proximidade com os poderosos. Em seguida, ele deixa de ouvir o clamor dos \u00faltimos. Por fim, torna-se incapaz de distinguir entre o altar e a busca por dinheiro e poderes pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de ser p\u00fablica sua ru\u00edna \u00e9 interior. Perde-se a capacidade de chorar pelos seus e endurece-se. E, quando j\u00e1 n\u00e3o ama mais nada, ainda conserva a linguagem do amor. Vivendo de sua pr\u00f3pria e perigosa duplicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O mau pastor fere por omiss\u00e3o. O falso pastor, por\u00e9m, fere por simula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas s\u00e3o figuras inquietantes de nosso tempo. O mau pastor ainda pode ser reconhecido pela dureza, pela neglig\u00eancia, pela arrog\u00e2ncia. O falso pastor, ao contr\u00e1rio, domina a arte da apar\u00eancia. Aprendeu a vestir os sinais do zelo, a pronunciar as palavras corretas, a manejar os gestos da piedade, a erguer-se como defensor do bem, enquanto em seu \u00edntimo se move um outro culto, mais antigo e mais cruel, o culto de si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>O falso pastor \u00e9 um ator da santidade. N\u00e3o deseja propriamente conduzir ningu\u00e9m nem a si mesmo para Deus. Seu desejo \u00e9 capitalizar. Aproxima-se dos pobres sem am\u00e1-los, apenas porque reconhece neles uma multid\u00e3o \u00fatil para progredir economicamente ou politicamente. Usa a linguagem de Deus para esconder a fome de dom\u00ednio. Em seus l\u00e1bios, o nome do Senhor pode at\u00e9 florescer, mas como flor plantada sobre pedra n\u00e3o enra\u00edza nem d\u00e1 sombra. Nele, nada \u00e9 salvo.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 por isso que, em tempos confusos, o falso pastor costuma ser mais danoso que o mau. O mau causa esc\u00e2ndalo e pode despertar rea\u00e7\u00e3o. O falso produz fasc\u00ednio e cinismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil, t\u00e3o ferido por desigualdades antigas, t\u00e3o vulner\u00e1vel \u00e0s ret\u00f3ricas de salva\u00e7\u00e3o imediata, tornou-se terreno prop\u00edcio para esses pastoreios degenerados. Em meio \u00e0 pobreza material e simb\u00f3lica, muitos aprenderam a transformar a f\u00e9 em neg\u00f3cio e a esperan\u00e7a em mercadoria. Alguns descobriram que o sofrimento do povo pode ser explorado com extraordin\u00e1ria rentabilidade. Outros perceberam que a religi\u00e3o, quando separada da cruz e do servi\u00e7o, pode tornar-se um atalho para prest\u00edgio, riqueza e poder. E, assim, enquanto o Evangelho chama para a entrega, o esp\u00edrito do tempo sussurra sedu\u00e7\u00f5es de grandeza.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso, entretanto, anula a beleza do verdadeiro pastoreio, torna-o ainda mais urgente. Porque a sua presen\u00e7a, quase sempre discreta, sustenta a Igreja e o mundo com uma for\u00e7a que permanece de p\u00e9 junto \u00e0s feridas concretas. Conhece o cheiro do rebanho porque convive com ele. Sabe onde a noite \u00e9 mais fria, onde a alma est\u00e1 mais amea\u00e7ada, onde a d\u00favida j\u00e1 deformou o cora\u00e7\u00e3o. O Bom Pastor guarda pessoas sem explor\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua autoridade tem origem na coer\u00eancia entre a palavra e a vida. Nela, tem algo da paci\u00eancia divina, que n\u00e3o se cansa de recome\u00e7ar com o ser humano. O Bom Pastor n\u00e3o tem vergonha da fragilidade alheia, porque sabe que a pr\u00f3pria miss\u00e3o lhe foi confiada e sua responsabilidade \u00e9 diante de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o Bom Pastor aceita desaparecer para que Cristo apare\u00e7a, sem reivindicar para si a centralidade que pertence a outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pergunta urgente, portanto, diz respeito \u00e0 voz que estamos ouvindo. Jo\u00e3o escreve que as ovelhas reconhecem a voz do verdadeiro pastor, mas o mundo multiplica vozes, amplifica vaidades, premia esc\u00e2ndalos, acolhe frases violentas.<\/p>\n\n\n\n<p>Num pa\u00eds assolado por manipula\u00e7\u00f5es, como o nosso, surge agora a necessidade espiritual de reaprender a discernir que nem todo aquele que fala de deus vem de Deus. Nem todo aquele que carrega a b\u00edblia serve ao Evangelho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 bem verdade que o rebanho \u00e9 tentado a amar a for\u00e7a mais do que a bondade e o del\u00edrio mais do que a verdade. Mas isso n\u00e3o vem de Deus. A Escritura, quando lida como hist\u00f3ria do Povo de Deus, n\u00e3o nos infantiliza, ela educa para libertar-nos do fasc\u00ednio por chefes religiosos, pol\u00edticos ou morais que se apresentam como salvadores, mas n\u00e3o passam de administradores da pr\u00f3pria ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A figura do Bom Pastor caminha junto com o Povo de Deus. Caminhando com cajado \u00e9 a imagem da ternura e medida do ju\u00edzo, denunciando que onde h\u00e1 rebanho ferido, houve antes uma vigil\u00e2ncia negligenciada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha MotaBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO) No Domingo do Bom Pastor a Igreja contempla a beleza do Cristo que conduz, protege, re\u00fane e se entrega; mas, contemplando-o, recebe tamb\u00e9m a r\u00e9gua pela qual todos os outros pastoreios devem ser medidos. 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