{"id":18900,"date":"2026-03-27T09:37:56","date_gmt":"2026-03-27T12:37:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/?p=18900"},"modified":"2026-04-06T09:35:48","modified_gmt":"2026-04-06T12:35:48","slug":"semana-santa-a-seriedade-do-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/2026\/03\/27\/semana-santa-a-seriedade-do-amor\/","title":{"rendered":"Semana Santa, a seriedade do Amor"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br><\/strong><em>Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias passados, antes que o cora\u00e7\u00e3o conhecesse o tempo, j\u00e1 pairava sobre o mundo uma Palavra mais antiga que as estrelas. Dela vinham os come\u00e7os, e por ela se sustentavam os caminhos que viriam a existir.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s, por\u00e9m, labut\u00e1vamos como viajantes sob n\u00e9voa ouvindo nas dobras do vento e no rumor das \u00e1guas um eco distante; cada gera\u00e7\u00e3o guardava, como podia, um fragmento dessa lembran\u00e7a. Fruto de uma voz que o mundo ouviu em sua juventude, uma promessa que n\u00e3o se distrai daquilo que promete.<\/p>\n\n\n\n<p>A voz ouvida n\u00e3o era como a voz dos reis da terra, que juram ao amanhecer e ao cair da tarde j\u00e1 esqueceram. Sua palavra n\u00e3o era como a fuma\u00e7a, que se eleva por um momento e logo se desfaz. Aquilo que ele pronunciava permanecia, aquilo que ele prometia se cumpria. E assim, por muitas eras de eras, enquanto os povos erguiam torres, quebravam alian\u00e7as, atravessavam desertos e enterravam seus mortos, a promessa feita seguia seu caminho oculto, como rio cavando por baixo da terra \u00e1rida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o veio o tempo em que a promessa se encarnou e j\u00e1 n\u00e3o quis apenas ressoar nos profetas e nos sonhos da noite; tomou para si o peso do dia, o p\u00f3 das estradas e o cansa\u00e7o dos que labutam.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele que desde sempre guardava o mundo em sua palavra desceu at\u00e9 ele. N\u00e3o veio com o fulgor diante do qual as muralhas se desfazem, nem com o estrondo que sucede ao rel\u00e2mpago. Veio em sil\u00eancio como chegam os viajantes ao cair da tarde, veio sob o c\u00e9u da humanidade, trazendo consigo a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomou para si a condi\u00e7\u00e3o dos que caminham entre aurora e sepulcro. Recebeu o peso das horas, a sucess\u00e3o dos dias, o frio das madrugadas e a lentid\u00e3o dos passos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele a quem pertenciam os confins da terra quis conhecer o limite de um corpo, o compasso do cora\u00e7\u00e3o, a fome depois da jornada, a amizade ao redor do p\u00e3o, o pranto diante do t\u00famulo, a solid\u00e3o sob as \u00e1rvores da noite. Assim, o Senhor entrou no mundo como caminhante entre caminhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa esperan\u00e7a j\u00e1 estava escrita no barro de Ad\u00e3o e na can\u00e7\u00e3o secreta do criado. Entrar na terra dos vivos \u00e9 aceitar a travessia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m nasce para permanecer junto ao limiar. A humanidade recebe a vida como caminhante. Aprende o nome das coisas andando, amadurece sob o peso dos dias, ama em meio \u00e0s guerras, perde sob o mesmo c\u00e9u. Leva anos para compreender que existir \u00e9 mover-se entre promessa e cumprimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso o Filho caminhou.<\/p>\n\n\n\n<p>Caminhou pelas margens onde a \u00e1gua recolhe as vozes dos simples; entre colinas e ruas estreitas. Caminhou entre doentes, pescadores, m\u00e3es aflitas, crian\u00e7as, estrangeiros, pobres de esp\u00edrito, homens endurecidos pelo costume e mulheres que sofriam em sil\u00eancio. Uma marcha sem pressa na encosta do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O caminhar recordou-nos de alguma coisa anterior ao medo. Os cegos ergueram o rosto, como se sentissem um clar\u00e3o sem nome. Os cansados descobriam que o peso de seus fardos podia ser aliviado. Os pecadores, acostumados a viver \u00e0 sombra, ouviam em sua voz a seriedade de uma miseric\u00f3rdia antiga como o tempo. E ainda assim sua presen\u00e7a trazia tamb\u00e9m inquieta\u00e7\u00e3o, porque a luz sempre perturba as fortalezas do orgulho e as casas da injusti\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos pensaram que seu caminho terminaria como terminam os caminhos dos justos entre os homens. Em recusa, em abandono e em sangue derramado sobre a terra ingrata. E, de fato, para l\u00e1 seus passos se encaminharam, embora poucos o soubessem. Cada estrada por que passava inclinava-se secretamente para aquela descida; cada monte anunciava uma colina de dor; cada repouso junto \u00e0 mesa apontava para a hora em que ofereceria n\u00e3o apenas p\u00e3o, mas a si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim o Caminhante avan\u00e7ou para o cora\u00e7\u00e3o escuro do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o recuou diante do \u00f3dio dos violentos, nem se desviou quando a amizade vacilou, nem se escondeu quando a noite se fechou. Seus p\u00e9s, que haviam atravessado aldeias e campos, subiram tamb\u00e9m a estrada amarga. E ali a fidelidade do Alt\u00edssimo mostrou sua grandeza al\u00e9m de toda medida.<\/p>\n\n\n\n<p>A promessa entrou na afli\u00e7\u00e3o, o amor na ferida, a vida na morte. O Caminhante estendeu-se sobre a madeira como quem abre uma ponte sobre o abismo, para que os perdidos encontrem passagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Veio ent\u00e3o o primeiro dia, e o mundo tremeu sob a dor de contemplar seu Senhor entregue \u00e0s m\u00e3os da viol\u00eancia. O c\u00e9u se velou. A terra guardou sil\u00eancio. Muitos julgaram que a antiga promessa havia enfim sido vencida, e que o t\u00famulo seria a morada da esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Veio depois o segundo dia, o mais estranho de todos os dias desde que o sol iluminou este mundo. Era o dia im\u00f3vel, o dia fechado, o dia em que as portas pareciam pesadas demais para serem abertas e o ar espesso para ser respirado. Nesse dia, o mundo viu apenas a pedra, o sepulcro e a aus\u00eancia. Mas as ra\u00edzes da fidelidade trabalhavam escondidas, para al\u00e9m do alcance da vista, como sementes sob a neve ou fogo debaixo das cinzas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o amanheceu o terceiro dia!<\/p>\n\n\n\n<p>E nenhum canto, nenhum brilho, nenhuma aurora nas montanhas desde o princ\u00edpio do mundo se igualou \u00e0quele romper. Pois a morte, que havia fechado suas m\u00e3os sobre reis e mendigos, s\u00e1bios e crian\u00e7as, profetas e pecadores, descobriu que tocara aquele a quem n\u00e3o podia reter. O sepulcro foi espalancado como se irrompe de \u00e1guas sufocantes. A pedra se partiu. O sil\u00eancio foi superado por uma vida que n\u00e3o voltaria a perecer. E o Caminhante levantou-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Levantou-se trazendo uma novidade ao alcance dos mortais. Em seu corpo glorioso, ainda marcado pela mem\u00f3ria dos cravos, brilhava a verdade que nenhuma palavra humana pode pronunciar sem espanto. A promessa atravessou a noite inteira e permaneceu inteira; a fidelidade passou pelo abismo e trouxe consigo a aurora; o Deus que desceu ao mundo n\u00e3o voltou atr\u00e1s, mas foi at\u00e9 o fim.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, todos os caminhos da terra foram mudados, ainda que muitos o ignorem.<\/p>\n\n\n\n<p>O Caminhante chama agora outros caminhantes. Sua voz percorre campos, cidades, claustros, desertos, lares e ru\u00ednas, dizendo a cada gera\u00e7\u00e3o que se ponha de p\u00e9 e siga. N\u00e3o chama apenas os fortes, os s\u00e1bios ou os puros. Chama os que t\u00eam p\u00e9s cansados, cora\u00e7\u00e3o dividido, mem\u00f3ria ferida e pouca esperan\u00e7a. Chama-os porque conhece a estrada. Chama-os porque j\u00e1 entrou na noite do mundo e abriu uma Clareira. Chama-os porque \u00e9 ca\u00e7ador de vida e luz, e n\u00e3o de morte e escurid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim nasceram os disc\u00edpulos, como companheiros do Caminhante. A eles foi dado mais do que doutrina; foi dado um caminho. Entregue mais do que consola\u00e7\u00e3o; foi confiada uma marcha.<\/p>\n\n\n\n<p>Tornamo-nos povo da estrada, gente do terceiro dia, mulheres e homens que aprenderam a reconhecer na sexta-feira a <strong>seriedade do amor<\/strong>, no s\u00e1bado a <strong>paci\u00eancia da esperan\u00e7a<\/strong> e no domingo a <strong>vit\u00f3ria do cora\u00e7\u00e3o<\/strong> sobre a dureza do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>E ainda agora, quando os reinos envelhecem, as guerras obscurecem o horizonte e muitos se perguntam se a promessa se perdeu entre as ru\u00ednas do mundo; o que permanece \u00e9 o fato que o Alt\u00edssimo entrou na hist\u00f3ria como caminhante. Seus p\u00e9s tocaram a poeira. Sua voz chamou os perdidos. Sua fidelidade desceu at\u00e9 a morte. Sua vida abriu a manh\u00e3 do terceiro dia. E todo aquele que o ouve, cedo ou tarde, encontra dentro de si o vest\u00edgio dessa verdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha MotaBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO) Nos dias passados, antes que o cora\u00e7\u00e3o conhecesse o tempo, j\u00e1 pairava sobre o mundo uma Palavra mais antiga que as estrelas. Dela vinham os come\u00e7os, e por ela se sustentavam os caminhos que viriam a existir. 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