{"id":18747,"date":"2026-01-05T13:29:33","date_gmt":"2026-01-05T16:29:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/?p=18747"},"modified":"2026-03-19T10:04:30","modified_gmt":"2026-03-19T13:04:30","slug":"o-dilema-de-um-mundo-sem-consenso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/2026\/01\/05\/o-dilema-de-um-mundo-sem-consenso\/","title":{"rendered":"O dilema de um mundo sem consenso"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br><\/strong><em>Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O in\u00edcio de 2026 encontra o mundo suspenso numa zona de ambiguidade hist\u00f3rica. Algo sutil e perigoso est\u00e1 em curso. H\u00e1 uma corros\u00e3o dos crit\u00e9rios com os quais, desde 1945, aprendemos a diferenciar for\u00e7a de direito, soberania de arb\u00edtrio e corre\u00e7\u00e3o de abuso, inaugurando um dilema moral, jur\u00eddico e civilizacional, e n\u00e3o apenas pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Como agir contra governos que corroem a pr\u00f3pria legitimidade sem destruir, no gesto de corre\u00e7\u00e3o, os fundamentos que ainda sustentam a conviv\u00eancia internacional? Como depor um governante que n\u00e3o quer sair do poder quando ele pr\u00f3prio tutelou as institui\u00e7\u00f5es encarregadas de remov\u00ea-lo?<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia recente da Venezuela tornou esse dilema quase did\u00e1tico em sua perversidade. N\u00e3o se tratava de um tirano cl\u00e1ssico, sustentado apenas pela viol\u00eancia ostensiva, mas de um dirigente que aprendeu a administrar o tempo institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele n\u00e3o aboliu elei\u00e7\u00f5es, esvaziou-as. N\u00e3o fechou tribunais, domesticou-os. N\u00e3o dissolveu o parlamento, transformou-o em cen\u00e1rio. A legitimidade n\u00e3o foi suprimida; foi cuidadosamente encenada. Criou-se, assim, uma tutela das institui\u00e7\u00f5es, uma legalidade que n\u00e3o corrige o poder, mas o perpetua.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, toda a\u00e7\u00e3o externa parece contaminada. Intervir \u00e9 facilmente rotulado como golpe; n\u00e3o intervir, como cumplicidade. O direito internacional, concebido para arbitrar conflitos entre Estados soberanos relativamente est\u00e1veis, mostra-se fr\u00e1gil diante de regimes que n\u00e3o negam a legalidade, mas a consomem por dentro. O dilema, ent\u00e3o, \u00e9 como defender a democracia sem violar o princ\u00edpio que a sustenta?<\/p>\n\n\n\n<p>Esse impasse torna-se ainda mais grave quando, em outro ponto do tabuleiro, pa\u00edses que sempre se apresentaram como pilares da ordem internacional passam a relativizar as mesmas regras que ajudaram a construir. Quando uma pot\u00eancia que pode agir militar, econ\u00f4mica e tecnologicamente come\u00e7a a tutelar ou corroer as institui\u00e7\u00f5es internacionais em vez de sustent\u00e1-las, algo se rompe num n\u00edvel t\u00e3o profundo que n\u00e3o \u00e9 mais apenas uma norma que \u00e9 violada; \u00e9 a pr\u00f3pria ideia de norma que se enfraquece.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, as amea\u00e7as, ainda que ret\u00f3ricas, de anexa\u00e7\u00e3o da Groenl\u00e2ndia pelos Estados Unidos ganham um peso simb\u00f3lico devastador. Mesmo que jamais se concretizem, elas reintroduzem a expans\u00e3o territorial como possibilidade leg\u00edtima no discurso pol\u00edtico, algo que, desde o p\u00f3s-guerra, era considerado intrat\u00e1vel entre democracias consolidadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, construiu-se a confian\u00e7a de que ningu\u00e9m mais reivindicaria o direito de reorganizar o mundo pela for\u00e7a. Um pacto fr\u00e1gil, mas decisivo. Hoje, esse pacto est\u00e1 rompido pela volta da amea\u00e7a como instrumento leg\u00edtimo de negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A esse cen\u00e1rio, j\u00e1 inst\u00e1vel, soma-se a emerg\u00eancia de projetos de civiliza\u00e7\u00f5es-Estado, que n\u00e3o se reconhecem como pa\u00edses entre outros, mas como centros hist\u00f3ricos com direitos difusos sobre territ\u00f3rios e povos como um terceiro movimento estrutural.<\/p>\n\n\n\n<p>A China, ao pensar-se cada vez mais como <em>uma grande China<\/em>, recupera uma gram\u00e1tica imperial na qual fronteiras contempor\u00e2neas s\u00e3o vistas como interrup\u00e7\u00f5es provis\u00f3rias de uma continuidade hist\u00f3rica mais profunda. Pa\u00edses vizinhos deixam de ser plenamente soberanos e passam a ser compreendidos como zonas naturais de influ\u00eancia, seguran\u00e7a ou heran\u00e7a cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa l\u00f3gica relativiza o direito internacional sem neg\u00e1-lo frontalmente. Ele \u00e9 reinterpretado, flexibilizado, contornado. O perigo n\u00e3o est\u00e1 apenas no conflito aberto, mas na aceita\u00e7\u00e3o progressiva da ideia de que a for\u00e7a hist\u00f3rica, econ\u00f4mica, demogr\u00e1fica, tecnol\u00f3gica, geram direitos pol\u00edticos especiais.<\/p>\n\n\n\n<p>De modo ainda mais expl\u00edcito, essa gram\u00e1tica manifesta-se na ideia de uma R\u00fassia restaurada. A longa guerra contra a Ucr\u00e2nia \u00e9 a tentativa de reescrever o mapa moral do p\u00f3s-Guerra Fria. Ao negar a plena legitimidade de um pa\u00eds vizinho, a R\u00fassia desafia n\u00e3o um Estado espec\u00edfico, mas o princ\u00edpio de que povos podem escolher seu destino fora das \u00f3rbitas imperiais do passado.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra russa surte o seu efeito pedag\u00f3gico. Vizinhos observam; a Europa reencontra fantasmas que julgava superados e a for\u00e7a voltou a ser argumento para corrigir a hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse ponto que tudo pode se acelerar. Quando diferentes pot\u00eancias, cada uma \u00e0 sua maneira, passam a questionar os limites civilizacionais, cria-se um efeito de cont\u00e1gio. A exce\u00e7\u00e3o deixa de ser exce\u00e7\u00e3o. O gesto de um legitima a aud\u00e1cia do outro. Mesmo amea\u00e7as n\u00e3o cumpridas produzem efeitos reais, pois deslocam o centro de gravidade do sistema internacional do direito para a capacidade de impor fatos.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo de 2026 inicia-se com uma crise de crit\u00e9rios. J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 claro quem tem autoridade para julgar, nem com que instrumentos, nem at\u00e9 onde pode ir sem se tornar aquilo que pretende combater. Depor governantes que tutelam seus pa\u00edses parece necess\u00e1rio; faz\u00ea-lo corroendo os fundamentos da soberania parece autodestrutivo. Defender a ordem internacional exige for\u00e7a; us\u00e1-la em excesso dissolve a pr\u00f3pria ordem que se busca preservar.<\/p>\n\n\n\n<p>O tra\u00e7o mais inquietante deste tempo \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o estamos assistindo apenas ao fim de uma ordem, mas ao fim da cren\u00e7a de que uma ordem comum seja poss\u00edvel. Quando grandes pot\u00eancias passam a pensar-se como exce\u00e7\u00f5es permanentes, o mundo deixa de ser um espa\u00e7o compartilhado e volta a ser um tabuleiro. E tabuleiros, como a hist\u00f3ria insiste em lembrar, n\u00e3o conhecem dilemas morais, apenas movimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Viver no dilema parece, por enquanto, a \u00fanica sa\u00edda. N\u00e3o porque seja desej\u00e1vel, mas porque as alternativas f\u00e1ceis j\u00e1 demonstraram seu custo hist\u00f3rico. Habitar o dilema significa reconhecer limites, aceitar a tens\u00e3o, resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es absolutas num mundo que perdeu os crit\u00e9rios absolutos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse ponto que o Evangelho de Cristo pode iluminar com ju\u00edzos mais profundos. O Evangelho n\u00e3o promete atalhos, mas prop\u00f5e um modo de atravessar o conflito sem perder a alma. Ele recusa tanto a domina\u00e7\u00e3o quanto a indiferen\u00e7a; denuncia a viol\u00eancia sem absolver a injusti\u00e7a; insiste na verdade sem se render \u00e0 l\u00f3gica da for\u00e7a. Sua luz n\u00e3o elimina o dilema, mas impede que o dilema se converta em desespero.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha MotaBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO) O in\u00edcio de 2026 encontra o mundo suspenso numa zona de ambiguidade hist\u00f3rica. Algo sutil e perigoso est\u00e1 em curso. 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