{"id":18646,"date":"2025-11-24T07:55:00","date_gmt":"2025-11-24T10:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/?p=18646"},"modified":"2025-12-20T12:25:09","modified_gmt":"2025-12-20T15:25:09","slug":"o-ultimo-trono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/2025\/11\/24\/o-ultimo-trono\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo trono"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br><\/strong><em>Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O ano lit\u00fargico se encerra diante de uma cena que, aos olhos do mundo, n\u00e3o tem nada de solene. H\u00e1 somente um madeiro erguido fora da cidade, um condenado entre dois criminosos, o riso amargo dos passantes e a indiferen\u00e7a dos observadores. Sobre a cabe\u00e7a de Jesus, contudo, uma inscri\u00e7\u00e3o insiste: \u201cEste \u00e9 o Rei dos judeus\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim que a Igreja contempla o Rei do Universo!<\/p>\n\n\n\n<p>Em Lucas 23, o contraste \u00e9 dolorosamente preciso. Em volta da cruz, est\u00e3o todos os sinais de poder que conhecemos. A multid\u00e3o que observa e julga, as autoridades religiosas que escarnecem, a m\u00e1quina do imp\u00e9rio que executa sem hesitar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali se acumulam todas as expectativas de \u201creino\u201d que a hist\u00f3ria aprecia. For\u00e7a que se imp\u00f5e, prest\u00edgio que domina, efici\u00eancia que elimina o inc\u00f4modo. Em meio a tudo isso, o Rei de Israel parece o oposto de um rei. N\u00e3o comanda ex\u00e9rcitos, n\u00e3o desce do pat\u00edbulo, n\u00e3o devolve insultos. A coroa \u00e9 de espinhos, o trono de madeira, o manto \u00e9 o pr\u00f3prio sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, \u00e9 precisamente a\u00ed que o evangelho concentra o olhar. Um dos malfeitores provoca: \u201cN\u00e3o \u00e9s tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a n\u00f3s\u201d. Um pedido que resume toda a l\u00f3gica do poder. Um rei, para o mundo, \u00e9 algu\u00e9m que se protege primeiro, que demonstra for\u00e7a pela fuga da humilha\u00e7\u00e3o, que prova sua realeza evitando a fraqueza.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o outro condenado, a ant\u00edtese do primeiro, aquele que a tradi\u00e7\u00e3o chamar\u00e1 de \u201cbom ladr\u00e3o\u201d, intui uma majestade diferente. Ele n\u00e3o v\u00ea milagres, nem luzes, n\u00e3o v\u00ea legi\u00f5es de anjos. V\u00ea um homem crucificado como ele, mas que suporta a dor com uma altivez que n\u00e3o se explica. Ent\u00e3o arrisca uma frase de confiss\u00e3o e s\u00faplica: \u201cJesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino\u201d. Ele n\u00e3o pede para descer da cruz. Pede para ser alcan\u00e7ado por uma lembran\u00e7a que n\u00e3o esquece. Reconhece como rei justamente aquele que n\u00e3o se salva a si mesmo, mas se entrega por todos.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta de Cristo sentencia como uma proclama\u00e7\u00e3o real: \u201cHoje estar\u00e1s comigo no para\u00edso\u201d. Uma promessa pronunciada entre o sangue e a poeira, quase aos sussurros, mas com a autoridade de quem podia faz\u00ea-la. Um Rei medido pela profundidade com que alcan\u00e7a o cora\u00e7\u00e3o e o arranca do desespero.<\/p>\n\n\n\n<p>Celebrar Cristo Rei do Universo \u00e0 luz desse evangelho \u00e9 aceitar uma contradi\u00e7\u00e3o fecunda. Nosso imagin\u00e1rio pede coroas de ouro, tronos de m\u00e1rmore, vit\u00f3rias incontest\u00e1veis. O evangelho nos entrega um rei desfigurado, coroado de espinhos, vitorioso no fracasso.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo espera um reino que elimina as cat\u00e1strofes. Cristo inaugura um reinado que as atravessa. Guerras, abalos, injusti\u00e7as, pandemias, quedas de imp\u00e9rios, tudo continua a acontecer, como sempre aconteceu. Mas, desde a cruz, essas for\u00e7as perderam autoridade. O reinado de Cristo instala na noite escura do mundo uma luz que n\u00e3o pode ser apagada.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aqui que a intui\u00e7\u00e3o po\u00e9tica de Henry Wadsworth Longfellow se faz teologia. Quando diz que a aurora n\u00e3o tarda, que a noite n\u00e3o \u00e9 sem estrelas, que o amor \u00e9 eterno, ele desvela aquilo que a Igreja contempla quando se ajoelha diante do crucificado. As trevas s\u00e3o reais, mas n\u00e3o s\u00e3o intranspon\u00edveis. O mal \u00e9 terr\u00edvel, mas n\u00e3o \u00e9 irrestrito. O tempo humano \u00e9 dram\u00e1tico, mas n\u00e3o \u00e9 regido pelo acaso. Sobre tudo isso, discreto e soberano, permanece um Reinado que n\u00e3o envelhece.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizer que Cristo \u00e9 Rei do Universo \u00e9 afirmar que a hist\u00f3ria n\u00e3o caminha \u00e0 deriva.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Longfellow recorda que \u201cDeus \u00e9 sempre Deus, e sua f\u00e9 n\u00e3o nos falhar\u00e1; [pois]Cristo \u00e9 eterno\u201d, descreve com exatid\u00e3o o fundamento desse reinado.<\/p>\n\n\n\n<p>O Reino de Cristo n\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o passageira, nem uma hegemonia cultural, mas \u00e9 a fidelidade indestrut\u00edvel do Filho que nunca se retrata.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao concluir o ano lit\u00fargico diante do Cristo Rei, a Igreja olha para o alto da cruz e reconhece, naquele rosto desfigurado, o \u00fanico rosto que n\u00e3o passa. Todas as coroas do mundo desbotam ou duram em vitrines de museu. Todos os tronos desmoronam, mas a realeza de Jesus permanece, porque est\u00e1 inscrita em vida ferida e ressuscitada. &nbsp;Por isso, a aurora n\u00e3o tarda, e a noite, por mais escura, nunca \u00e9 sem estrelas.<\/p>\n\n\n\n<p>O fim do ano cat\u00f3lico com, a Festa de Cristo Rei, \u00e9 uma concentra\u00e7\u00e3o de sentido. Tudo o que celebramos ao longo do ano \u2013 o Natal, a P\u00e1scoa, o Pentecostes \u2013 converge aqui para confessar que, por tr\u00e1s de cada mist\u00e9rio, reina o Senhor. E se Ele reina, o futuro n\u00e3o \u00e9 amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o mundo continuar\u00e1 a medir poderes por for\u00e7as vis\u00edveis, a Igreja continuar\u00e1 a levantar os olhos para o crucificado e, paradoxalmente, cham\u00e1-lo de Rei.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre a expectativa do mundo e o Evangelho, a contradi\u00e7\u00e3o permanecer\u00e1, mas \u00e9 nessa contradi\u00e7\u00e3o que se esconde o segredo. O amor que se deixa ferir sem deixar de amar \u00e9 a forma mais alta de poder. E esse poder, porque \u00e9 amor, n\u00e3o passa.<\/p>\n\n\n\n<p>Cristo \u00e9 eterno! E, enquanto Ele reina, nenhuma noite ser\u00e1 absoluta, nenhuma cruz ser\u00e1 definitiva e todo reinado neste mundo ser\u00e1 apenas um intervalo diante da gl\u00f3ria inquebr\u00e1vel do seu senhorio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha MotaBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO) O ano lit\u00fargico se encerra diante de uma cena que, aos olhos do mundo, n\u00e3o tem nada de solene. H\u00e1 somente um madeiro erguido fora da cidade, um condenado entre dois criminosos, o riso amargo dos passantes e a indiferen\u00e7a dos observadores. 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