{"id":18575,"date":"2025-10-04T08:23:45","date_gmt":"2025-10-04T11:23:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/?p=18575"},"modified":"2025-11-24T08:12:21","modified_gmt":"2025-11-24T11:12:21","slug":"a-fe-que-toca-o-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/2025\/10\/04\/a-fe-que-toca-o-coracao\/","title":{"rendered":"A f\u00e9 que toca o cora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br><\/strong><em>Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os ap\u00f3stolos pedem com simplicidade que lhes aumente a f\u00e9, em Lc 17,5. Um pedido que nasceu no contexto de uma exig\u00eancia concreta. Jesus acabava de falar sobre esc\u00e2ndalos e sobre perdoar repetidas vezes no mesmo dia. Eles percebem que, sem um dom do alto, n\u00e3o conseguiriam viver esse compasso da miseric\u00f3rdia.<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta do Senhor desloca o eixo. Se tiverdes f\u00e9 como um gr\u00e3o de mostarda, direis \u00e0 amoreira de ra\u00edzes profundas que se arranque e se plante no mar, e ela obedecer\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>O acento n\u00e3o recai sobre uma medida maior, mas sobre a vida contida naquele m\u00ednimo. O gr\u00e3o \u00e9 pequeno, por\u00e9m vivo, a f\u00e9 tamb\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 um esfor\u00e7o psicol\u00f3gico que inflamos com a vontade, mas virtude que Deus infunde para nos ligar a Ele e tornar poss\u00edvel muitas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus, como usual, usa imagens que falam \u00e0 mem\u00f3ria do povo. A amoreira \u00e9 \u00e1rvore de vida longa e ra\u00edzes tenazes, plant\u00e1-la no mar \u00e9 algo que ningu\u00e9m consegue. \u00c9 uma imagem que toca aquilo que mais nos amarra por dentro: rancores antigos, amarguras que dominam a alma, estruturas de pecado e de costume. \u00c9 nesse ponto que o ensino sobre a f\u00e9 encontra o pedido dos ap\u00f3stolos. Para perdoar setenta vezes, para n\u00e3o devolver na mesma moeda, para come\u00e7ar de novo com o irm\u00e3o que fere, \u00e9 preciso um princ\u00edpio de vida que n\u00e3o nasce de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>A f\u00e9 \u00e9 esse princ\u00edpio. Vem de Deus, volta a Deus e, no caminho, d\u00e1 ao nosso agir uma perseveran\u00e7a que excede o c\u00e1lculo.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto de Lucas sugere ainda outra liga\u00e7\u00e3o. Logo depois do gr\u00e3o de mostarda, Jesus conta a pequena par\u00e1bola do servo que cumpre o seu trabalho e, ao final, diz apenas que fez o seu servi\u00e7o. H\u00e1 quem leia este texto com dureza, mas eu o vejo como uma pedagogia da vida espiritual. A f\u00e9 n\u00e3o forja pessoas que exigem b\u00f4nus, forma disc\u00edpulos que, por estarem unidos ao Senhor, perseveram. A virtude teologal da f\u00e9 d\u00e1 ao cora\u00e7\u00e3o luz para crer, mas tamb\u00e9m forma para perseveran\u00e7a. Ela opera escondida, como semente em terra boa. Sustenta gestos repetidos, discretos e custosos. Ensina a atravessar dias longos com caridade persistente. \u00c9 aqui que a Escritura conversa com a literatura e que Victor Hugo se aproxima do Evangelho.<\/p>\n\n\n\n<p>Em <em>Os Miser\u00e1veis<\/em>, a vida de Jean Valjean \u00e9 tocada pela gra\u00e7a quando o bispo Myriel lhe oferece p\u00e3o, abrigo e lhe olhou com f\u00e9 para selar o perd\u00e3o. O condenado de alma endurecida aprendeu a respirar de novo. O bem, por\u00e9m, n\u00e3o lhe chega como facilidade. Vem como tarefa di\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do encontro com algu\u00e9m que redirecionou o seu peso interior, Valjean persevera quando decide tornar-se Monsieur Madeleine e criar trabalho para outros. Persevera quando se inclina sobre Fantine e carrega os custos das escolhas malfeitas de toda uma cidade. Persevera quando resgata Cosette e, depois, quando a protege do olhar severo da lei. Persevera quando desce o esgoto de Paris com o corpo de Marius nos bra\u00e7os. Nada disso \u00e9 espet\u00e1culo. \u00c9 mais como o gr\u00e3o de mostarda que, no \u00edntimo, empurra as ra\u00edzes para baixo para subir em busca de luz.<\/p>\n\n\n\n<p>Hugo constr\u00f3i em Valjean um retrato moral que a teologia reconhece. A gra\u00e7a operante de Deus o alcan\u00e7a e a gra\u00e7a cooperante sustenta as suas decis\u00f5es seguintes. F\u00e9 e caridade entram em regime de alian\u00e7a. A f\u00e9 v\u00ea e confia. A caridade age e se entrega. Um homem comum, ferido por dentro, passa a insistir no bem quando ningu\u00e9m o v\u00ea e quando tudo parecia perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>Javert, sua ant\u00edtese, representa a rigidez da letra que n\u00e3o se converte. Valjean encarna a paci\u00eancia do justo que aprendeu com a miseric\u00f3rdia a fazer justi\u00e7a de outro modo. N\u00e3o se trata de opor justi\u00e7a e miseric\u00f3rdia, mas de mostrar como a f\u00e9 teologal ordena o cora\u00e7\u00e3o para Deus e, ao faz\u00ea-lo, d\u00e1 ao justo um horizonte que a norma sozinha n\u00e3o alcan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A exegese de Lucas ajuda a compreender por que o romance nos comove. Quando os ap\u00f3stolos pedem aumento de f\u00e9, usam um verbo que exprime adi\u00e7\u00e3o. Jesus devolve um gr\u00e3o, n\u00e3o um monte. Indica que o essencial n\u00e3o \u00e9 medir, mas viver. O gr\u00e3o guarda um dinamismo que n\u00e3o se fabrica. A semente n\u00e3o se convence a germinar por decreto, ela recebe e, recebendo, responde. Assim \u00e9 a f\u00e9. Deus a d\u00e1, n\u00f3s a acolhemos e, acolhendo, descobrimos que \u00e9 poss\u00edvel recome\u00e7ar, suportar, entregar, perdoar.<\/p>\n\n\n\n<p>A amoreira que parecia imposs\u00edvel de arrancar come\u00e7a a ceder.<\/p>\n\n\n\n<p>A par\u00e1bola da amoreira plantada no mar ganha ent\u00e3o um rosto. Um homem, num mundo duro, escolhe n\u00e3o odiar quem o perseguiu. Escolhe abrigar uma crian\u00e7a. Escolhe calar o que traria louros f\u00e1ceis. Escolhe caminhar na noite segurando o peso de outro corpo. Ningu\u00e9m aplaude nos becos de Paris. Mas Deus v\u00ea e fortalece. Essa persist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 teimosia moral. \u00c9 a pe\u00e7a interior de uma vida visitada por Deus. \u00c9 aquilo que a Igreja chama virtude teologal. Vem de Deus. Aponta para Deus. Suporta tudo porque participa da fidelidade de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez seja essa a li\u00e7\u00e3o mais urgente de Lucas. Pedir f\u00e9 \u00e9 confessar que n\u00e3o podemos por n\u00f3s mesmos. Receber a f\u00e9 \u00e9 aprender que Deus faz crescer o que semeia. Perseverar na f\u00e9 \u00e9 descobrir que o bem n\u00e3o se sustenta apenas com argumentos. Sustenta-se com uma vida unida ao Senhor, mesmo quando falhamos e a noite pesa. No romance, a cidade muda devagar ao redor de Valjean. No Evangelho, o mundo muda devagar ao redor de quem perdoa de novo. O mar permanece mar. Mas, aqui e ali, \u00e1rvores antigas come\u00e7am a surgir.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, a f\u00e9 como virtude teologal nos devolve uma verdade simples e alta. O que nos faz permanecer n\u00e3o \u00e9 o tamanho da nossa for\u00e7a, \u00e9 a vida de Deus em n\u00f3s. O gr\u00e3o \u00e9 pequeno, o seu impulso, n\u00e3o. Quando essa vida toca um indiv\u00edduo, ele n\u00e3o se limita a evitar o mal, mas aprende a fazer o bem com paci\u00eancia. Aprende a recome\u00e7ar, aprende a n\u00e3o cansar de perdoar. \u00c9 assim que a amoreira se levanta das entranhas da terra e vai repousar nas m\u00e3os de Deus. \u00c9 assim que a cidade dos homens ganha frestas de luz. \u00c9 assim que a f\u00e9 cumpre sua promessa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha MotaBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO) Os ap\u00f3stolos pedem com simplicidade que lhes aumente a f\u00e9, em Lc 17,5. Um pedido que nasceu no contexto de uma exig\u00eancia concreta. Jesus acabava de falar sobre esc\u00e2ndalos e sobre perdoar repetidas vezes no mesmo dia. 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