{"id":18557,"date":"2025-09-01T18:16:36","date_gmt":"2025-09-01T21:16:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/?p=18557"},"modified":"2025-10-31T10:32:23","modified_gmt":"2025-10-31T13:32:23","slug":"restaurar-sem-profanar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/2025\/09\/01\/restaurar-sem-profanar\/","title":{"rendered":"Restaurar sem profanar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<br><\/strong><em>Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quando penso no nosso tempo, n\u00e3o o vejo como um corredor de ideias, mas como a travessia por dentro de uma igreja em reforma. H\u00e1 andaimes no trif\u00f3rio, panos cobrindo arcadas, capit\u00e9is por concluir, pedras numeradas \u00e0 espera do encaixe. A imagem me veio da velha Notre-Dame, narrada no romance hom\u00f4nimo de Victor Hugo. Tamb\u00e9m n\u00f3s, hoje em dia, nos encontramos com nossas t\u00e9cnicas e cren\u00e7as, nossas d\u00favidas e h\u00e1bitos na dif\u00edcil sina de caminharmos com a cabe\u00e7a de uma era e os membros de outra. Um elemento indiz\u00edvel que nos atravessa como um h\u00edbrido que respira.<\/p>\n\n\n\n<p>O que alguns apressados chamam de fim, eu chamo canteiro, obra aberta, pendente, entregue ao toque do tempo e ao trabalho paciente das m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Aprendi com as pedras que os grandes monumentos n\u00e3o s\u00e3o fruto de um \u00fanico g\u00eanio, mas de sucess\u00f5es que se enxertam, corrigem, contradizem e continuam. O rom\u00e2nico n\u00e3o apagou o g\u00f3tico, a alquimia das oficinas n\u00e3o dissolveu a aritm\u00e9tica dos pedreiros. Tudo se junta, \u00e0s vezes de modo brusco, e a jun\u00e7\u00e3o pode gerar o sublime. Assim tamb\u00e9m a nossa cultura, c\u00f3digo antigo com novos&nbsp;<em>commits<\/em>, tradi\u00e7\u00e3o recebendo&nbsp;<em>patches<\/em>&nbsp;e bibliotecas in\u00e9ditas. Entre o claustro e a nuvem, a continuidade existe, embora dif\u00edcil. Por isso, o perigo maior n\u00e3o \u00e9 a eros\u00e3o lenta, mas a pressa de uma reforma sem gram\u00e1tica e a \u00e2nsia de utilidade que desfigura o que n\u00e3o sabe ler. Diante de um tempo-interm\u00e9dio assim, a tarefa primeira n\u00e3o \u00e9 derrubar portas, mas restaurar, conservar sem idolatrar, inovar sem profanar.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve um momento em que o edif\u00edcio deixou de ser o grande livro do povo. A imprensa, com sua pot\u00eancia de multiplica\u00e7\u00e3o, destronou a pedra como suporte soberano do pensamento. N\u00e3o foi aniquila\u00e7\u00e3o, foi troca de trono. Hoje vivemos outra destitui\u00e7\u00e3o silenciosa. O execut\u00e1vel desloca o impresso, o processo suplanta a p\u00e1gina, o fluxo governa o cap\u00edtulo. Em vez de margens e colof\u00f5es, estados e&nbsp;<em>pipelines<\/em>; no lugar de bibliotecas como dep\u00f3sitos da lembran\u00e7a, grafos e \u00edndices que prometem acesso imediato.<\/p>\n\n\n\n<p>O gesto mental muda com o suporte. Aquilo que em certa \u00e9poca conseguimos pensar e partilhar porque t\u00ednhamos paredes, depois porque t\u00ednhamos p\u00e1ginas, agora se organiza porque temos modelos, protocolos e dados. Essa \u00e9 a nova forma do comum.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um mundo que declina e, se o escutarmos com respeito, saberemos honr\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Arrefecem os ritmos rurais que marcavam, como sinos, as horas do of\u00edcio, cede a centralidade do anal\u00f3gico como medida de presen\u00e7a; rareia o demorar dos of\u00edcios, perde terreno a mem\u00f3ria como reten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas respira a disciplina da lembran\u00e7a que punha pessoas e comunidades diante de arquivos, cadernos, bibliografias anotadas, santos de devo\u00e7\u00e3o e prov\u00e9rbios de fam\u00edlia. Enfraquece a autoridade vertical transmitida por c\u00e1tedras e c\u00e2nones, esgar\u00e7a-se a linearidade em cap\u00edtulos, mingua a emiss\u00e3o escassa que fazia de cada palavra impressa um acontecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu lugar, ergue-se um mundo novo&nbsp;<em>in statu nascendi<\/em>, simultaneamente voraz e evasivo. Chamemo-lo digital, comunica\u00e7\u00e3o ub\u00edqua, intelig\u00eancia artificial \u2014 r\u00f3tulos incompletos para um regime em que a abund\u00e2ncia de emiss\u00e3o cria, paradoxalmente, escassez de aten\u00e7\u00e3o; em que a mem\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o se mede pela posse, mas pelo alcance; em que o presente \u00e9 continuamente refeito por&nbsp;<em>feeds<\/em>&nbsp;que reordenam prioridades na escala de milissegundos.<\/p>\n\n\n\n<p>A tela deixa de ser superf\u00edcie para tornar-se processo. O texto cede ao enunciado-fun\u00e7\u00e3o que recomenda, decide, prev\u00ea. O que outrora eram catedrais de pedra e bibliotecas de papel converteu-se em centros de dados discretos, cabos submarinos, algoritmos de ranqueamento, modelos de linguagem. Uma arquitetura l\u00f3gica cuja monumentalidade n\u00e3o se mede em altura, mas em depend\u00eancia. \u00c9 um poder difuso, \u00e0s vezes an\u00f4nimo, com um novo clero de administradores de chaves, curadores de dados, guardi\u00f5es de protocolos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como toda ascens\u00e3o r\u00e1pida, a novidade traz tenta\u00e7\u00f5es. A primeira \u00e9 a idolatria do presente absoluto, brilho que confunde atualiza\u00e7\u00e3o com verdade, velocidade com sabedoria. A segunda \u00e9 a dilacera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria: quando o arquivo vira corrente, perde-se contexto, e o passado se contorce para caber em formatos que mal o suportam. A terceira \u00e9 a iniquidade discreta: plataformas que prometem tudo a todos podem excluir os mesmos de sempre por padr\u00f5es invis\u00edveis, alimentados por assimetrias antigas. A quarta \u00e9 o poder sem rosto, exercido por pol\u00edticas de modera\u00e7\u00e3o e desenho de interfaces cujo impacto supera o de mil leis e raramente se submete a escrut\u00ednio. N\u00e3o digo isto por esp\u00edrito de den\u00fancia, mas por dever de lucidez. Uma era que se pretende transparente n\u00e3o pode aceitar zonas de sombra justamente nas estruturas que a ordenam.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse quadro, proponho a paci\u00eancia de ser. N\u00e3o escolher entre nostalgia e iconoclastia, e sim aprender a unir, como pedreiros pacientes, uma pedra nova ao corpo antigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, isso exige crit\u00e9rios de interoperabilidade para que o hoje dialogue com o ontem; auditabilidade para que decis\u00f5es autom\u00e1ticas possam ser compreendidas e corrigidas; formatos abertos que preservem legibilidade; guarda de contextos que acompanhe o documento quando ele viaja; compromisso com reversibilidade, porque toda reforma precisa deixar caminho de volta quando erra. Ah, tamb\u00e9m uma ascese da aten\u00e7\u00e3o, virtude discreta e decisiva capaz de desacelerar o olhar para n\u00e3o sermos arrastados a golpes de novidade, reaprender o gosto do estudo, aceitar a demora como condi\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma educa\u00e7\u00e3o nova, uma nova alfabetiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 ler e escrever textos, mas ler e escrever processos. Entender o que \u00e9 um modelo, como recomenda, por que acerta, onde falha; separar correla\u00e7\u00e3o de causalidade; decifrar grafos de depend\u00eancia como quem l\u00ea uma carta antiga; perceber que toda interface \u00e9 uma opini\u00e3o com bot\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O povo que outrora lia figuras nas portas das igrejas e depois soletrou p\u00e1ginas, agora precisa aprender os hier\u00f3glifos do digital para que a cidadania n\u00e3o seja delegada a quem \u201csabe mexer\u201d. A hermen\u00eautica do nosso tempo n\u00e3o se limita a exegeses de frases, mas inclui auditorias de fluxos. \u00c9 obra humilde e alta, e n\u00e3o ser\u00e1 feita por especialistas isolados, mas por comunidades de aprendizado \u2014 escolas, par\u00f3quias, bibliotecas, universidades, coletivos \u2014 at\u00e9 que o vocabul\u00e1rio comum se amplie outra vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que um discurso sobre a \u00e9poca tende a virar programa. Contento-me com menos e pe\u00e7o algo mais: responsabilidade&nbsp;<em>sine ira et studio<\/em>. A comunica\u00e7\u00e3o total pode ser hospedaria ou labirinto; a intelig\u00eancia artificial, pr\u00f3tese de justi\u00e7a ou acelerador de iniquidades; o digital, pra\u00e7a ou mercado ruidoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a pol\u00edtica do futuro imediato seja menos a multiplica\u00e7\u00e3o de leis e mais a inven\u00e7\u00e3o de salvaguardas \u2014&nbsp;<em>guardrails <\/em>\u2014institucionais e culturais, para que o poder difuso n\u00e3o se torne irrespons\u00e1vel. A Igreja, as universidades, o jornalismo, as comunidades de f\u00e9 e de pr\u00e1tica t\u00eam aqui um papel de custodiar mem\u00f3ria, dar tempo ao tempo, ensinar palavras que faltam e calar quando o sil\u00eancio \u00e9 a \u00fanica<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00edntimo, tudo se resume a uma forma exigente de esperan\u00e7a. N\u00e3o a esperan\u00e7a f\u00e1cil, que aguarda que \u201ctudo se resolva\u201d, mas a que se compromete com a obra e aceita a labuta.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, cada um de n\u00f3s precisa decidir que pedra pode acrescentar. Alguns erguer\u00e3o andaimes de pesquisa, outros ofertar\u00e3o degraus de justi\u00e7a, outros ainda, vitrais de beleza que instruem sem explicar. Todos, por\u00e9m, ter\u00e3o de responder por duas fidelidades: \u00e0 verdade que nos excede e \u00e0s pessoas concretas que nos foram confiadas, sobretudo as que menos lucram com o novo regime de visibilidade. Se falharmos nelas, o santu\u00e1rio poder\u00e1 reluzir por fora, mas por dentro faltar\u00e1 a santidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, digo no singular para que eu me escute primeiro, n\u00e3o quero ser turista de ru\u00ednas nem engenheiro de demoli\u00e7\u00e3o. Quero reconhecer onde o antigo nos ancora, onde o novo nos amplia e onde ambos pedem corre\u00e7\u00e3o. Evitar o gesto f\u00e1cil de renomear tudo e chamar de \u201cprogresso\u201d o que \u00e9 apenas ru\u00eddo; recusar o gesto sombrio de declarar fal\u00eancia e chamar de \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d o que \u00e9 s\u00f3 medo. Entre os extremos, construir.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 pouco, nem r\u00e1pido. Mas \u00e9 a maneira digna de atravessar este tempo-interm\u00e9dio com uma m\u00e3o no arquivo e outra no c\u00f3digo, uma orelha no sino e outra no&nbsp;<em>feed<\/em>, o cora\u00e7\u00e3o mais inclinado \u00e0 escuta do que \u00e0 emiss\u00e3o, <em>mutatis mutandis<\/em>, para que a casa n\u00e3o caia e para que, um dia, \u00e0 pergunta sobre o que fizemos enquanto o mundo mudava, possamos apontar uma pedra bem assentada por n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha MotaBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO) Quando penso no nosso tempo, n\u00e3o o vejo como um corredor de ideias, mas como a travessia por dentro de uma igreja em reforma. H\u00e1 andaimes no trif\u00f3rio, panos cobrindo arcadas, capit\u00e9is por concluir, pedras numeradas \u00e0 espera do encaixe. 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