{"id":18508,"date":"2025-08-02T07:42:12","date_gmt":"2025-08-02T10:42:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/?p=18508"},"modified":"2025-10-06T08:25:49","modified_gmt":"2025-10-06T11:25:49","slug":"a-ilusao-do-acumulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.diocesesaoluis.org.br\/home\/2025\/08\/02\/a-ilusao-do-acumulo\/","title":{"rendered":"A ilus\u00e3o do ac\u00famulo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong>Dom Lindomar Rocha Mota<\/strong><br><em>Bispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">\u201cVaidade das vaidades, tudo \u00e9 vaidade\u201d (Ecl 1,2)! Estas palavras, repetidas pelo Qohelet, soam como uma den\u00fancia universal de que o esfor\u00e7o humano encerrado em si mesmo \u00e9, no fim, um sopro vazio. O autor de Eclesiastes, com um olhar existencialista, constata a ang\u00fastia de quem trabalha, planeja, acumula e morre. O texto de Ecl 2,21-23 aprofunda esse desconcerto ao dizer que, \u201cquem trabalha com sabedoria, compet\u00eancia e dilig\u00eancia, dever\u00e1 entregar a sua parte a outro que em nada colaborou\u201d. A injusti\u00e7a, portanto, n\u00e3o est\u00e1 em deixar para os outros o que se fez, mas em colocar a confian\u00e7a \u00faltima em obras finitas. O que se colhe, afinal, sen\u00e3o fadiga, preocupa\u00e7\u00e3o e ins\u00f4nia?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse esp\u00edrito que o Evangelho de Lucas 12,13-21 deve ser lido. Jesus, interpelado por um homem que deseja resolver uma quest\u00e3o de heran\u00e7a, recusa-se a ser juiz de disputas materiais. Em vez disso, conta a par\u00e1bola de um rico cuja terra produziu tanto que ele decidiu construir celeiros maiores, viver folgadamente e dizer a si mesmo: \u201cTens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, goza a vida!\u201d Deus por\u00e9m lhe disse: \u201cInsensato! Ainda nesta noite tua vida te ser\u00e1 exigida. E o que acumulaste, para quem ser\u00e1?\u201d (Lc 12,20). A pergunta final de Deus ecoa Eclesiastes: para quem ser\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>A converg\u00eancia entre os dois textos est\u00e1 na cr\u00edtica da falsa seguran\u00e7a proporcionada pela riqueza, pelo trabalho autossuficiente e pela l\u00f3gica da posse. Em ambos, h\u00e1 uma den\u00fancia da idolatria da acumula\u00e7\u00e3o: a cren\u00e7a de que o sentido da vida est\u00e1 no \u201cter\u201d e no \u201cproduzir\u201d. Tanto a sabedoria do Antigo Testamento quanto o Cristo, Senhor, desafiam a l\u00f3gica dominante da produtividade e da propriedade, que ainda hoje governa as estruturas econ\u00f4micas e existenciais do nosso mundo. Somos treinados para investir, garantir, acumular, mas quase nunca para viver a gratuidade do presente.<\/p>\n\n\n\n<p>A trama dos dois textos gira em torno da busca humana por controle e seguran\u00e7a, especialmente por meio da posse de bens, e colocam um espelho diante do ser humano, onde resplandece que o controle \u00e9 uma ilus\u00e3o, a morte \u00e9 certa, e a heran\u00e7a pode ir parar nas m\u00e3os de quem n\u00e3o trabalhou \u2014 ou, como diz Jesus, pode ser perdida no instante em que se tenta usufru\u00ed-la. Em linguagem dos nossos dias, trata-se de uma cr\u00edtica ao capitalismo emocional: onde o eu se consome na ansiedade de garantir o que n\u00e3o pode possuir pela eternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus denuncia essa pretens\u00e3o ao dizer: \u201cAssim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas n\u00e3o \u00e9 rico diante de Deus\u201d (Lc 12,21). A alternativa \u00e0 vaidade \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o, a comunh\u00e3o, o desapego que permite ser verdadeiramente livre. O Reino de Deus n\u00e3o \u00e9 ac\u00famulo, mas partilha. N\u00e3o \u00e9 seguran\u00e7a garantida, mas confian\u00e7a no Pai. A riqueza, ent\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 em quantos celeiros tenho, mas em quanta vida sou capaz de doar. O Evangelho rompe com a l\u00f3gica da escassez e nos insere na l\u00f3gica da abund\u00e2ncia da gra\u00e7a.Hoje, quando o mundo vive sob o dom\u00ednio da produtividade, do consumo e da acumula\u00e7\u00e3o desmedida, esta Palavra \u00e9 uma alerta e um convite \u00e0 liberdade. O ser humano contempor\u00e2neo se v\u00ea refletido no rico insensato, cercado de tecnologia, garantias financeiras, proje\u00e7\u00f5es de futuro, mas sem saber se viver\u00e1 o dia seguinte. \u00c9 preciso, portanto, recuperar a sabedoria do Qohelet e a profecia de Jesus: tudo \u00e9 vaidade se n\u00e3o estiver fundado no amor que transcende o tempo e resiste \u00e0 morte.<\/p>\n\n\n\n<p>O Evangelho n\u00e3o nos convida ao desprezo do trabalho, mas \u00e0 sabedoria da f\u00e9. Trabalhar, sim, mas com o cora\u00e7\u00e3o livre, desapegado, orientado ao outro. Orientado ao Reino de Deus, que \u00e9 presen\u00e7a e n\u00e3o posse. O que permanece \u00e9 o que se doa. O que salva \u00e9 o que se partilha. S\u00f3 quem se desapega da vaidade se torna rico diante de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Lindomar Rocha MotaBispo de S\u00e3o Lu\u00eds de Montes Belos (GO) \u201cVaidade das vaidades, tudo \u00e9 vaidade\u201d (Ecl 1,2)! 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